Criei esse blog para propor um hábito de pensamento saudável. Em todos os âmbitos da vida. Refletir, humanizar, compreender, esses são os meus lemas.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Vaidade: Espelho, espelho meu


Cuidar do corpo é uma atitude saudável e ajuda a aumentar a auto-estima. Quando a busca pela beleza se torna obsessiva, porém, ela vira uma doença que exige tratamento.


B.C. era uma bela mulher de 33 anos, com o corpo esculpido por duas horas diárias de academia, prática de várias modalidades esportivas e uso freqüente de recursos como lipoaspiração e drenagem linfática. Os constantes elogios não a convenciam, no entanto. Ela nunca se satisfazia com os resultados do esforço, que chegava a consumir 30 horas por semana. Considerava-se menos dedicada do que o necessário e ficava em pânico com a idéia de passar dois dias sem exercícios físicos. Também se sentia incomodada cada vez que via o rosto no espelho. Concluiu que o maior problema era o formato do nariz, embora ninguém notasse nenhuma imperfeição ou desproporção nele. Decidiu submeter-se a uma cirurgia plástica. Não aprovou o resultado e fez outras três cirurgias, sempre procurando corrigir a anterior. Durante um ano e meio, deixou os demais aspectos da vida em segundo plano para tentar resolver o problema que ela mesma havia criado. Quase não saía de casa, angustiada por constatar que a perfeição com a qual sonhara parecia cada vez mais distante. Na quarta cirurgia, aconteceu o pior. Teve uma infecção, perdeu parte do nariz e ficou deformada.

Normal ou doentio?
Um dos esforços brasileiros no sentido de conhecer melhor este tipo de transtorno vem da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde uma equipe liderada pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, alarmada com a maior incidência de problemas relacionados à dificuldade de alimentação e à obsessão por dietas e exercícios físicos, desenvolveu um questionário sobre o tema (leia mais no quadro da próxima página). O objetivo é identificar se o paciente atravessou a fronteira entre a preocupação normal com a aparência e o comportamento doentio. As respostas resultam em uma pontuação que revela a existência do distúrbio e define se o estágio é moderado, médio ou grave. B.C. foi uma das pacientes diagnosticadas com TIC, um mal que, evoluindo silenciosamente e sem terapia, pode levar a sérios problemas de saúde, como a bulimia e a anorexia.
A preocupação ainda pontual com o transtorno de imagem corporal faz com que não existam estatísticas confiáveis sobre a incidência, mas a impressão geral dos especialistas é que os casos vêm aumentando a cada ano. “O maior número de casos parece estar diretamente relacionado à crescente valorização social da beleza e da juventude”, ressalta Silveira. Ele lembra que a pressão pela boa aparência, fortemente reforçada pela mídia, contribuiu nas últimas décadas para a banalização dos recursos da medicina, um perigo a mais para quem transforma a beleza em obsessão. “Muita gente passou a achar simples demais fazer uma lipo ou uma cirurgia plástica para se aproximar dos padrões de beleza vigentes, mas é preciso lembrar que mesmo as mais simples intervenções envolvem riscos”, diz o psiquiatra.
Beleza inatingível
Mesmo com a ascensão do metrossexual, o homem excessivamente preocupado com a aparência (cujo ícone é o jogador inglês de futebol David Beckham), as grandes vítimas da pressão social pela beleza continuam sendo as mulheres. Pela amostra obtida na primeira aplicação do questionário desenvolvido pela Unifesp, uma em cada cinco mulheres sofre de transtorno da imagem corporal. A antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mirian Goldenberg, organizadora do livro Nu & Vestido (Record, 2002) e autora de De Perto Ñinguém é Normal (Record, 2004), em que tratou da obsessão pela beleza, lembra que o fenômeno ganhou proporções muito maiores a partir dos anos 90, quando top models magérrimas passaram a ditar os padrões da moda. “A partir daí, as mulheres entraram em um labirinto do qual ainda não conseguiram escapar: a busca infinita pela perfeição, pela beleza inatingível”, descreve. Ela sugere que as mulheres se inspirem no exemplo da atriz Leila Diniz (1945-72), ícone da liberdade feminina nos anos 60, para buscar a “libertação”. “Leila prezava a liberdade, o prazer de viver, sem ligar para padrões e conceitos. Ela desafiava as convenções e criou o seu próprio padrão de comportamento”, diz Mirian. “É um belo exemplo para quem vive fazendo regimes malucos, torrando dinheiro com produtos ineficazes, vestindo roupas de adolescentes mesmo depois dos 40 anos, pintando os cabelos de loiro ou tentando imitar o peito siliconado ou os lábios carnudos da modelo ou atriz do momento.”
O maior desejo
A psicóloga Suely Murdocco lembra que, há alguns anos, uma revista feminina norte-americana fez uma enquete pedindo às leitoras que escolhessem uma entre três realizações: um encontro romântico com o homem dos sonhos, uma noite divertida com um amigo querido que não encontravam havia tempo ou emagrecer 10 quilos. A maioria escolheu – adivinhe? – a terceira opção. “As mulheres estão conquistando posições de importância na política e no trabalho, mas ainda persistem na idéia perniciosa de que o nosso maior poder é a beleza e a juventude. Acreditamos que mais cedo ou mais tarde perderemos nosso poder para mulheres mais belas e mais jovens”, critica Suely.
Para ela, uma mudança de mentalidade só seria possível a partir da nova geração. Ao ressaltar a influência da mídia, Suely defende uma campanha de conscientização direcionada às adolescentes. “A mulher brasileira é a mais bonita e sexy do mundo e não precisa imitar os modelos europeus, das loiras com olhos claros e cabelos lisos. Já é hora de quebrar a ditadura do manequim 36.”
Texto: Maurício Oliveira.

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